Transformando a Recaída: A Dependência e a PNL I

por Dr. Richard Bolstad e Margot Hamblett

Defnição de Dependência.

Seis a sete por cento dos americanos apresentam, em algum momento de suas vidas, sinais de dependência química (O’Brian e McKay, 1998, p.127). Nessa pesquisa, a palavra substância foi usada no sentido estrito de substâncias como álcool, cocaína, maconha ou ópio. A pesquisa excluiu a dependência de nicotina e cafeína, bem como qualquer dependência comportamental, como o jogo compulsivo. Neste artigo, vamos focalizar o uso de substâncias; mas as mesmas intervenções funcionam também em qualquer outro problema de dependência. O álcool, sozinho, é responsável pela metade das fatalidades relativas ao trânsito, um quarto dos suicídios, um terço dos assaltos, e a causa de morte de 100.000 americanos por ano (Dorsman, 1997, p.2).

 Ao tentar definir a dependência, os psiquiatras e outros referem-se a mais do que o uso excessivo, e a mais do que à sensação psíquica de necessidade da substância (American Psychiatric Association, 1994, p. 108-9). Referem-se àquilo que os conselheiros chamam de ambivalência (Miller e Rollnick, 1991, p. 36-47), e ao que os Practitioners de PNL chamam de incongruência seqüencial (Bandler e Grinder, 1982, p. 179-188). A pessoa acessa sua parte neurológica que busca o uso da substância, e depois a parte que não quer usá-la, em seqüência contínua. Por exemplo, ela pode exceder a quantidade da substância que planejara usar. Pode fazer tentativas de parar, ou seja, ela deseja parar de usar tal substância, mas continua a usá-la. Pode abandonar outras atividades que são importantes para ela, em conseqüência do uso da substância. Pode continuar a usar a substância apesar de, na verdade, sofrer problemas penosos e persistentes devidos ao seu uso. Pode até ter procurado parar de usá-la, e experimentado extremo desconforto (chamado de recaída). Em resumo, a dependência ocorre quando uma parte da pessoa quer parar, mas (e a palavra "mas" é usada intencionalmente) outra parte, aparentemente mais forte, não quer parar.

As Pessoas conseguem livrar-se naturalmente da maioria das dependências

Existe um grande número de programas que oferecem assistência para interromper o uso de substâncias por pessoas viciadas, inclusive o famoso programa de "12 passos" como o dos AA (Alcoólicos Anônimos). No entretanto, contrariamente à crença popular, a maioria das pessoas livra-se da dependência por si mesmas. Diversas pesquisas da Institution for Health and Aging (Universidade da Califórnia) mostram que os problemas de bebida, até o nível em que ocorrem os blackouts, quase sempre desaparecem antes da meia idade, sem assistência médica; como acontece com a maioria dos viciados em drogas na adolescência (Peele, 1989, p. 66). Mais de dois terços dos viciados que param de beber álcool o fazem por si mesmos. 95% dos 30 milhões de Americanos que deixaram de fumar na última década o fizeram sem auxílio médico do estilo AA. (Prochaska et alia, 1994, p. 36). Essas pessoas têm mais sucesso a longo prazo do que aquelas que escolhem programas de tratamento: 81% dos que param de beber por conta própria permanecem abstêmios durante mais de 10 anos, comparados com apenas 32% dos que vão aos AA. (Trimpey, 1996, p.78; Ragge, 1998, p.24).

 O mesmo parece acontecer com as dependências que fazem parte de um estilo de vida. Em 1982, Stanley Schachter publicou os resultados de um estudo a longo prazo sobre a obesidade. No início dos anos 70, ele formou a idéia de que enquanto a maioria das pessoas com excesso de peso podem emagrecer, muito poucas conseguem manter o peso. Em duas comunidades estudadas, o que ele realmente descobriu foi que 62% das pessoas obesas conseguiram perder uma média de 15 kg. e manter esse peso em média por 11,2 anos. Aqueles que nunca haviam entrado em programas de perda de peso obtiveram mais sucesso a longo prazo. Casualmente, ele descobriu que muitos fumantes deixam de fumar por si mesmos. Ele acompanhou também esta variável, e descobriu novamente que aqueles que já haviam feito programas de tratamento não foram tão bem sucedidos como aqueles que deixaram por si mesmos! (Schachter, 1982, p. 436-444).

E a respeito das chamadas "drogas pesadas"? Em um estudo de 1982 sobre o uso da morfina, 50 pacientes de cirurgia foram submetidos ao uso de morfina, sem controle, durante 6 dias. Embora eles usassem muito mais do que a quantidade usada por um dependente usual, todos eles diminuíram o uso da droga e o interromperam, sem problema algum, após a saída do hospital. Dos soldados americanos que usaram heroína na guerra do Vietnam (e a maior parte deles o fez) 73% ficaram viciados e livraram-se da dependência após o retorno. As autoridades ficaram apavoradas, esperando um enorme aumento do número de viciados. Na verdade, 90% simplesmente parou assim que voltou para a América. Os pesquisadores observaram: "Geralmente, acredita-se que após recuperar-se da dependência, a pessoa deve evitar qualquer contato posterior com a heroína. Pensa-se que experimentar a heroína, mesmo uma só vez, conduz rapidamente à volta para a dependência... A metade dos homens que ficaram viciados no Vietnam usaram heroína na volta, mas somente um em cada oito retornaram ao vício da heroína." (Peele, 1989, p. 167-168; Trimpey, 1996, p.78).

Como a medicação reforça a dependência.

O vício tem sido descrito pelos AA como uma doença física incontrolável, e os alcoólatras são informados de que apenas uma bebida restabelece o processo da doença incontrolável. A pesquisa invalida consistentemente essa afirmação. Em 1973, o psicólogo Alan Marlatt ofereceu bebidas com forte aroma de álcool, e descobriu que – enquanto eles acreditavam que as bebidas não continham álcool – bebiam somente quantidades normais. Por outro lado, os alcoólatras a quem foi dito que suas bebidas continham álcool começaram a beber compulsivamente, embora a bebida não contivesse álcool. Tais estudos foram repetidos numerosas vezes, sob condições variáveis. Aqueles que acreditam que não têm mais força depois de beber um drink contendo álcool mostram resultados muito piores nos estudos a longo prazo. Um estudo acompanhou, durante quatro anos, 548 alcoólatras diagnosticados e tratados inicialmente em oito diferentes centros de AA, e descobriu que enquanto apenas 7% deles conseguiram manter a abstinência, 18% eram agora bebedores sociais sem nenhum caso de embriaguez. Nesse estudo, aqueles que concordaram mais fortemente com o modelo de doença do alcoolismo dos AA foram os que apresentaram maior tendência a enfrentar problemas quatro anos mais tarde (Ragge, 1998, p.32-34).

Considere os 90% dos usuários veteranos do Vietnam que abandonaram o uso da heroína após seu retorno. O que causou a dependência, em primeiro lugar? Tinham uma doença que outros americanos não tinham? Não; eles foram colocados em uma situação que produzia extrema incongruência. Uma parte deles os mantinha numa zona de guerra, enquanto outra parte enfrentava uma grande dor. Eles suprimiam a consciência dessa dor com a heroína, da mesma maneira que os pacientes acima mencionados de cirurgia no hospital suprimiam sua dor com a morfina. Após seu retorno para os Estados Unidos, 90% dos veteranos descobriram que não mais sofriam da dor. Apenas 10% deles ainda tinham grandes necessidades não satisfeitas, ao retornarem. Os outros simplesmente pararam, porque a necessidade havia parado. Eles nunca foram "fracos" antes da droga. Eles estavam suplantados pelas suas próprias necessidades internas, notavelmente saudáveis e compreensíveis. Não é preciso uma "doença" para explicar esse processo.

 Stanton Peele enfatiza: "Quando o narcótico diminui a dor, ou quando a cocaína produz um sentimento de alegria, ou quando o álcool ou o jogo criam um sentimento de poder, ou quando fazer compras ou comer indicam à pessoa que ela está sendo cuidada, é à sensação que a pessoa fica viciada. Não é necessária outra explicação – sobre laços químicos ou deficiências biológicas. E nenhuma dessas outras teorias fazem sentido perante os mais óbvios aspectos da dependência." (Peele, 1989, p. 151). A medicação do vício tem efeitos colaterais até mais graves quando a pessoa realmente pára de usá-la e acaba o tratamento. A informação que lhe é passada é de que o fato de estar completamente bem agora é uma prova de que ela realmente tinha uma doença! Essa é uma faca de dois gumes, contradita pela grande maioria dos viciados que se recuperam por si mesmos.

Como o "Confronto" reforça a dependência.

Imagine um psicoterapeuta trabalhando com um cliente que apresenta incongruência seqüencial, em que ele se embriaga mas depois deseja não tê-lo feito. O terapeuta acha que a parte dele que quer parar é a "certa" e começa a argüir e "confrontar" o cliente a partir desse ponto de vista. O resultado é previsível. O cliente também apresentará o seu lado da argumentação. Isso tem conduzido à crença de que a "negação" e a "racionalização" são características da personalidade de pessoas viciadas. Cinco décadas de pesquisa mostram que não existe correlação entre a negação e o vício. (Miller e Rollnick, 1991, p.9-10). De fato, o único problema de caráter associado com o vício é a ambivalência sobre a substância a ser usada! No entanto, a negação tem aumentado, em função dos programas de tratamento baseados no confronto. Na verdade, quanto maior o tempo em que uma pessoa permanece no programa de "12 passos" para viciados, tanto mais aumenta seu grau de culpa, depressão, medo, e outras características de personalidade geralmente associadas ao vício (Ragge, 1998, p. 25).

 Reafirmamos a pressuposição básica da PNL: a resistência indica simplesmente falta de rapport! Diversas meta-revisões de estudos de pesquisa mostram que o estilo do terapeuta é mais importante do que o conteúdo da terapia na previsão dos resultados em relação à dependência. O estilo mais eficaz é menos confrontador, mais enfático, e usa mais habilidades de comunicação (Finney e Moos, 1998, p. 160; Miller e Rollnick,d 1991, p. 4-7). Está provado que, se mesmo numa única sessão for usado o "confronto" e o rótulo (Encare isso: você é um alcoólatra!"), isso aumenta a argumentação e negação do cliente (Miller e Rollnick, 1991, p. 9-10). É extremamente importante compreender isso. Pelo menos um livro orientando o uso da "abordagem Ericksoniana" no aconselhamento sobre dependência enfatiza o uso da confrontação extrema (Lovern, 1991). A dependência não é, por si mesma, uma evidência de personalidade baseada na negação e racionalização argumentativa, e as abordagens agressivas como a de John Lovern na verdade geram o problema que desejam resolver.

Continuação

Anchor Point - March/2000
Golfinho nº 65 JUN/2000
Tradução: Hélia Cadore – E-mail:
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